DA MARGEM DA HISTÓRIA PARA O CENTRO DA FICÇÃO: A INSCRIÇÃO DA CULTURA POPULAR EM ALFARRÁBIOS, DE JOSÉ DE ALENCAR

Rafaela Mendes Mano Sanches

Resumo

Este trabalho propõe analisar a representação da cultura popular no texto Alfarrábios: crônicas dos tempos coloniais (1872), atentando-se ao processo de simbiose cultural, explorado pelos meios com que ficcionaliza o contato entre a cultura letrada e a cultura popular no período seiscentista – época abordada pelas crônicas constituintes do livro. O gênero adotado por Alencar em Alfarrábios suscita reflexões sobre as zonas de contato entre história e ficção; nomeados de “crônicas”, os textos são construídos à maneira das crônicas coloniais, mas permeáveis à inventividade literária que se sintoniza com o repertório popular a fim de preencher as lacunas da história deixadas pelos registros oficiais. Desse modo, o objetivo de nosso estudo é investigar o delineamento das linhas de força da crônica alencariana sob influxo da relação dialética entre historiografia oficial e registro das matrizes folclóricas do país. A crônica de Alfarrábios, por um lado nutre-se das formas de representação próprias da história oficial, entrevista em gêneros como crônica histórica e a ficção de caráter histórico; por outro, se apropria do repertório das narrativas lendárias, acercando-se delas com liberdade inventiva e linguagem francamente poética; tais características permitem ler os textos de Alfarrábios à luz do contexto da discussão sobre as fronteiras entre os gêneros e os limites entre ficção e história que ocuparam os letrados durante o século XIX. Nossa pesquisa se debruça sobre as especificidades do gênero das crônicas de Alfarrábios com vistas também a reconstituir as discussões em torno dos conceitos de história e tradição popular, que a apreensão do material lendário, importante para Alfarrábios, suscita no âmbito da investigação do objeto histórico.

Palavras-chave

literatura brasileira, cultura popular, romance histórico

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