A sedimentação de vozes sociais em redações “nota mil” do ENEM: a artificialização do argumento
DOI:
https://doi.org/10.5935/1981-4755.v27n62a14Resumo
Este artigo busca ampliar uma investigação iniciada em Mendes (2023): o fenômeno da sedimentação (ou bricolagem) de vozes sociais em textos escolares. Partindo de um diálogo com os estudos bakhtinianos sobre o dialogismo constitutivo da linguagem, olhamos para os textos produzidos por alunos no sentido de verificar como estes vão costurando essas vozes a fim de construírem posicionamentos. Um desafio, dentre outros, posto para quem analisa a construção dialógica em textos escolares reside no fato de que não se encontram exemplares “criativos”, de produções autorais. É, antes, um trabalho de se verificarem aspectos relevantes de dissonâncias de vozes, por exemplo. O problema é quando essa dissonância passa a não ser mais uma questão atrelada a um natural processo de aprendizagem e passa a ser incorporada nas produções de linguagem da sociedade. Isso constitui a segunda parte de nossa investigação. Ao percebermos que as redações “nota mil” constituem modos artificializados de incorporação da voz do outro, nos vimos diante de uma questão recorrente hoje: o esvaziamento do lugar do outro, como aponta Han (2022). Institucionaliza-se cada vez mais o mero decalque da voz do outro, em uma época em que importa, cada vez menos, o esforço teórico e reflexivo da análise do dizer alheio.
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