CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO REVISTA DE LITERATURA, HISTÓRIA E MEMÓRIA V. 22, N. 40, 2026

08-04-2026

CHAMADA PARA PUBLICAÇÕES

A Revista de Literatura, História e Memória, ISSN 1983-1498, Qualis B1, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), de periodicidade semestral, está com chamada aberta para o recebimento de artigos originais e inéditos para integralizarem sua próxima edição (v. 22, n. 40, 2026). Em cada uma de suas edições, a revista compõe-se de um dossiê com temática definida.

 

DOSSIÊ: LITERATURAS NÃO-HEGEMÔNICAS: LEITURAS DA ECOCRÍTICA FEMINISTA E SUAS INTERSECÇÕES DECOLONIAIS

Organização: Izabel Brandão; Letícia Romariz; Raquel Nunes – PPGLL/UFAL

Prazo de submissão: 31 de julho de 2026

Publicação: dezembro de 2026

Estudos ecológicos e suas ramificações têm assumido crescente centralidade nas discussões acadêmicas contemporâneas, impulsionados por preocupações sociais e políticas relacionadas às questões ambientais. Nesse contexto, o ecofeminismo destaca-se ao evidenciar que a exploração da natureza ‒ ou do mundo mais-que-humano – está profundamente articulada à opressão de grupos historicamente marginalizados por estruturas como o colonialismo, o racismo e o sexismo.

Enquanto campo teórico, o ecofeminismo estabelece “conexões entre lutas” (McGuire; McGuire, 1998, p. 192), ao reconhecer que diferentes formas de opressão se inter-relacionam e são sustentadas por uma lógica comum, centrada na exploração da natureza. Tal perspectiva dialoga com abordagens interseccionais, de gênero e decoloniais, mobilizando contribuições de autoras como Alicia Puleo, Catherine Walsh, Greta Gaard e Kimberlé Crenshaw, entre outras.

No Brasil, pesquisadoras como Angélica Soares (in memoriam) e Izabel Brandão têm desenvolvido, desde a década de 1990, estudos críticos que articulam ecofeminismo e literatura. Em sua tradução de textos de Greta Gaard, Brandão (2017) evidencia a relevância do pensamento ecofeminista tanto no campo literário quanto no social, ressaltando também seu caráter ativista.

Ainda que frequentemente associado a debates contemporâneos, o ecofeminismo se ancora em saberes que, como apontam McGuire e McGuire (1998), sempre estiveram presentes na consciência coletiva, contribuindo para a articulação entre conhecimentos antigos e modernos. Nessa direção, Louise Dunlap (2022) argumenta que muitos dos chamados “novos” insights emergem, na verdade, da recuperação de saberes historicamente silenciados.

Do mesmo modo, Huggan e Tiffin (2010) defendem que a crise ambiental exige não apenas novas formas de pensar o humano e o não humano (ou o mais que humano), mas também uma reavaliação dos processos históricos de colonialismo e escravização em termos ecológicos. Tal movimento implica, simultaneamente, repensar a própria ecologia à luz dessas dinâmicas.

A partir de autoras como Stacy Alaimo (2010), compreende-se que o ser humano está intrinsecamente interligado ao mundo mais-que-humano, sendo sua materialidade inseparável do meio ambiente. Nesse sentido, a perspectiva decolonial torna-se fundamental para questionar sistemas naturalizados na modernidade ocidental. Conforme Catherine Walsh (2009), o decolonial configura-se como uma prática contínua de transgressão e construção de alternativas, voltada à valorização de saberes historicamente marginalizados.

A constituição de sistemas desiguais implicou o apagamento de epistemologias de povos negros e indígenas, cuja recuperação se mostra urgente, sobretudo diante de um cenário em que o colapso ambiental se articula a desigualdades sociais e políticas (Ferdinand, 2022). Nesse contexto, destacam-se as contribuições de mulheres indígenas e afrodescendentes, cujas produções teóricas, literárias e ativistas têm sido fundamentais para o pensamento ecofeminista, embora ainda sub-representadas no campo acadêmico (Anae, 2023; Siwila, 2014).

Por fim, conforme Carolyn Merchant (2025 [1980]), a ecologia pode promover um diálogo entre filosofia e ciência capaz de evidenciar as implicações de projetos que entrelaçam dimensões coloniais, raciais e capitalistas.

Diante desse panorama, este dossiê propõe reunir trabalhos que articulem ecofeminismo, decolonialidade, gênero e estudos ecológicos, com especial atenção a produções oriundas de contextos historicamente marginalizados, incluindo a literatura. Busca-se, assim, fomentar reflexões críticas que contribuam para a construção de outras formas de relação com a natureza e com a vida, pautadas na justiça social, ambiental e epistêmica.

 

Referências

ALAIMO, Stacy. Bodily natures: science, environment, and the material self. Bloomington: Indiana University Press, 2010.

ANAE, Nicole. “African Literatura and Ecofeminism”. In:VAKOCH, Douglas A. (Org.). The Routledge Handbook of Ecofeminism and Literature. Nova Iorque: Routledge, p. 101-125, 2023.

BRANDÃO, Izabel. Ecofeminismo e literatura: novas fronteiras críticas. In: BRANDÃO, Izabel; MUZART, Zahidé. Refazendo Nós - Ensaios sobre mulher e literatura. Florianópolis: Mulheres, 2003. p. 461-474.

BRANDÃO, Izabel. Greta Gaard e a busca de rumos mais ecofeministas para os estudos eccríticos. In: BRANDÃO, Izabel et all (Orgs.). Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas. Maceió: Edufal. Florianópolis: Mulheres, 2017, p.819-826..

DUNLAP, Louise. Inherited Silence: Listening to the Land, Healing the Colonizer Mind. Nova Iorque: New Village Press, 2022.

FERDINAND, Malcom. Decolonial Ecology: Thinking from the Caribbean World. Traduzido por Anthony Paul Smith. Cambridge: Polity Press, 2022.

GAARD, Greta. Novos Rumos para o ecofeminismo: em busca de uma ecocrítica mais feminista. In: BRANDÃO, Izabel et all (Orgs). Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas. Maceió: Edufal. Florianópolis: Mulheres, 2017, p.873-818.

HUGGAN, Graham; TIFFIN, Helen. Postcolonial Ecocriticism: Literature, Animals, Environment. Londres: Routledge, 2015.

MCGUIRE, Cathleen; MCGUIRE, Colleen. “Grass-Roots Ecofeminism: Activating Utopia”. In: GAARD, Greta; MURPHY, Patrick (Orgs.). Ecofeminist Literary Criticism: Theory, Interpretation, Pedagogy. Urbana: University of Illinois Press. p. 186-203, 1998.

MERCHANT, Carolyn. A morte da natureza: mulheres, ecologia e revolução científica. Tradução de Allan de Campos Silva et al. São Paulo: Igra  Kniga; Expressão Popular,  2025 [1980].

SOARES, Maria Angélica. Anotações para uma crítica literária ecofeminista. Revista Garrafa, online. Vol.18, 2009. p. 3.

SIWILA, Lilian Cheelo. “‘Tracing the Ecological Footprints of our Foremothers’: Towards an African Feminist Approach to Women's Connectedness with Nature”. Studia Historiae Ecclesiasticae, Dez. 2014, vol. 40, n. 2. p. 131-147.

WALSH, Catherine Interculturalidad, decolonialidad y el buen vivir. In: Interculturalidad, estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época. Quito: Universidad Andina Simon Bolivar y Abya Yala, 2009.