BONS BRANCOS, NEGROS MAUS: O PROCESSO DE HUMANIZAÇÃO NA OBRA CORAÇÕES MIGRANTES, DE MARYSE CONDÉ

Antonio Adailton Silva, Márcio Araújo de Melo

Resumo

A literatura afrodescendente, diferentemente de outras manifestações literárias, tem o objetivo bem específico de valorizar as qualidades referentes às pessoas negras, desde suas raízes africanas. Isso implica em ser um texto crítico ao sistema social opressor, tanto da época em que as pessoas negras podiam ser escravizadas por lei, como no pós-abolicionismo, em face da negação de oportunidades por razões de cunho racial. O objetivo do presente artigo é apresentar uma análise de personagens negros e brancos da obra Corações migrantes, de Maryse Condé, no sentido de mostrar que em obras literárias de cunho afrodescendente, ao invés de defesa intransigente de essencialismos, representar o homem como um ser moralmente constituído, com virtudes e falhas, pode levar o leitor a reflexões mais adequadas para compreender esse homem como produto de relações humanas. A análise leva em consideração o conceito de humanização, de Antonio Candido. Para embasar a discussão sobre a inserção de Corações migrantes como obra literária afrodescendente apropria-se aqui de elementos identificadores relacionados por Eduardo de Assis Duarte e do conceito de hibridez cultural, conforme abordagem de Zilá Bernd. Considerando a obrigatoriedade de promover estudos da história e da cultura afro-brasileira nas escolas, em conformidade com a Lei 11.645/2008, a leitura e a mediação de Corações migrantes pode se constituir em valiosa ferramenta para compreender a construção de personagens ficcionais como representações bem elaboradas dos atores não ficcionais em suas relações de poder.

Palavras-chave

Corações Migrantes; Literatura Afrodescendente; Humanização.

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