DEVIR-PIGMEIA: E A LITERATURA INVENTA A MENOR MULHER DO MUNDO

Raquel Wandelli Loth

Resumo

De tanto cavar um sulco para um povo dentro de outro, de tanto jogar com o brinquedo das caixas, a literatura do devir chega à potência máxima da miniaturização fabular. É com o “achado” de uma Pigmeia cujo “tamanho real” corresponde ao de sua fotografia nas páginas do jornal que Clarice Lispector nos inventa “a menor mulher do mundo”. O anúncio da aparição intempestiva dessa Luci moderna instala imediatamente dentro da narrativa uma caixa de ressonância que opõe o discurso da ordem da família e da cidade ao ponto de vista de uma árvore no coração da floresta. A pequenez anômala e delirante de um povo menor (DELEUZE) irrompe no império da maioridade dos fatos e das representações do Povo. E nos produz a antinotícia de um desaparecimento in continuum, que repete o mecanismo do gravurista Escher na série “Menor e menor”. Como na lenda da boneca Matryoshka, a mulherzinha negra guarda no ventre grávido um povo ameaçado que falta à literatura. A singularidade técnica da imagem de “Pequena Flor” expõe a anomalidade política de um povo singular que radicaliza no corpo a representação de sua minoridade como puro gesto de resistência fabular. Com a “estranha graça” pigmeia, a literatura desperta sua fome antropofágica de um primitivismo que não diz respeito à noção de anterioridade e atraso, mas à de minoração em profundidade.

Palavras-chave

Clarice Lispector; Inumano; Literatura menor; Fabulação; Primitivismo

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