Françoise: rasura e loucura, do conto de Luiz Vilela ao curta-metragem de Rafael Conde

Rauer Ribeiro Rodrigues, Kelcilene Grácia-Rodrigues

Resumo

Premiado no I Concurso Nacional de Contos do Paraná (1968), o conto Françoise, de Luiz Vilela (Tarde da noite, 1970), foi filmado por Rafael Conde (curta homônimo, 2001, 35 mm., 22 min., cor, com Débora Falabella, que pela atuação recebeu diversos prêmios). A narrativa centra-se no diálogo entre narrador e personagem-título; ele espera o horário do ônibus, na Rodoviária, e ela, adolescente, vagueia, sem destino; no final, ela é caracterizada, por um tio que vem buscá-la, como tendo “perturbação psíquica”. O narrador não se lembra de como o tio se despediu; lembra-se somente de que, sozinho, segurou “a corrente que margeava o passeio”, a mesma que Françoise segurava no início do conto. Na adaptação, a narrativa vai além, e segue a perambulação de Françoise. Em Vilela, chamam a atenção sutis modificações que o autor fez no discurso do conto entre a primeira edição e uma de 2009, alterações não presentes em edições dos anos 1980 e 1990. Em Conde, o olhar algo introspectivo do narrador autodiegético cede espaço para uma câmera algo onisciente; assim, a perspectiva irônica transmuta-se em certeza, e a loucura não percebida torna-se diretriz fílmica. No entanto, se a intertextualidade do curta, tendo o conto como deflagrador, firma meios expressivos que desvelam, parece haver caminho de mão-dupla, uma vez que o discurso de Vilela, na nova edição de Françoise, evidencia como que um olhar que se revê como alteridade na adaptação, e assim rasura o original, paradoxalmente fortificando-se em suas intenções originais. É o que mostramos neste trabalho.

Palavras-chave

alteridade; cinema; intertextualidade; literatura.

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