Fronteiras de papel: monopólio estatal e emigração no regime salazarista (1933-1947)

Autores

  • Marina Simões Galvanese Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.36449/rth.v24i1.25109

Palavras-chave:

Portugal, Estado-Novo, emigração, Companhia Itaquerê

Resumo


Este artigo analisa o impacto das políticas de emigração nas estratégias emigratórias de cidadãos portugueses durante o regime salazarista. A intenção do governo em “monopolizar os meios legítimos de circulação de pessoas” (TORPEY, 2005) gerou atritos com as agências de emigração que, por décadas, organizaram o embarque dos emigrantes. Os despachos assinados pelo Ministro do Interior, por pressão dos agentes ou com o objetivo de afastá-los do processo e garantir o controle estatal sobre a emigração, impactaram a vida de centenas de pessoas. As cartas desesperadas escritas por famílias impedidas de embarcar rumo às fazendas de São Paulo em 1938 ou dos indivíduos proibidos de emigrar pelo decreto de 1947, evidenciam a complexidade do fenômeno emigratório que envolve dinâmicas globais, estratégias individuais e os objetivos dos Estados-nação.

Biografia do Autor

Marina Simões Galvanese, Universidade de São Paulo

Mestre em História Contemporânea pela Universidade de Coimbra, doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo

Referências

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Publicado

23-10-2020

Como Citar

GALVANESE, M. S. Fronteiras de papel: monopólio estatal e emigração no regime salazarista (1933-1947). Tempos Históricos, [S. l.], v. 24, n. 1, p. 36–72, 2020. DOI: 10.36449/rth.v24i1.25109. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/temposhistoricos/article/view/25109. Acesso em: 18 ago. 2022.

Edição

Seção

Dossiê Temático