Do ambiente teórico ao laboratório prático do caos: profissão médica e Guerra do Paraguai (1850-1860)

Autores

DOI:

https://doi.org/10.36449/rth.v25i2.26288

Palavras-chave:

Profissão médica, Médicos Diplomados, Guerra do Paraguai, Faculdades de Medicina do Império, Cólera-Morbo.

Resumo


Este artigo investiga profissão médica no Brasil entre as décadas de 1850 e 1860, com ênfase nas transformações e dilemas apresentados aos médicos diplomados durante a Guerra do Paraguai. Com base na análise de decretos e outros escritos produzidos no período aqui elencado, buscamos perceber possibilidades de atuação desses esculápios, partindo da hipótese de que o confronto foi momento especial que evidenciou alguns obstáculos à luta por reconhecimento e exclusividade profissional, mas também foi palco de intensificação dos argumentos em defesa dos doutores certificados. A ameaça da cólera-morbo recebe centralidade em nosso texto, que está estruturado em três eixos principais, que versam sobre a medicina como saber institucionalizado no pré-guerra, a profissão e o mal colérico durante o conflito e breves reflexões sobre o conceito de classe médica.

Biografia do Autor

Vanessa de Jesus Queiroz, Universidade de Brasília

Licenciada, bacharela, mestra e doutoranda da linha de História Social do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Brasília. Pesquisadora da medicina oitocentista brasileira.

Referências

Citações:

Pomos aqui termo à primeira parte de nossa narrativa, mas não deporemos a penna, sem lhe acrescentarmos algumas palavras ácerca do velho guia. Incumbiu-nos, ao morrer, de recomendar-lhe a família ao governo da patria: como esquecer a palavra empenhada? Morreu do cholera, assim como o filho mais velho, e antes salvou centenas de existencias, dirigindo a retirada da nossa columna atravez de solidões que só elle conhecia; ainda depois de morto como para continuar a intervenção benefica estendida sobre nós, a sua estancia do jardim, que na agonia suprema os seus últimos olhares puderam ainda entrever de uma para outra margem do rio, o seu laranjal que era seu orgulho, de alguma forma salvou-nos miraculosamente do cholera, pondo à nossa disposição os seus fructos inúmeros, soccorro inesperado cujo valor suppunhamos pelo menos que elle exagerasse quando no-lo prometia... (TAUNAY, 1874:51-52)

... Não obstante o mau estado de muitos dos doentes a maior parte delles apresentam melhoras consideraveis, devido aos cuidados assiduos do academico Paiva e (ilegível), ajudante do Doutor Oliveira Botelho, e dos enfermeiros Salustiano Jose Monteiro de Barros, cabos Jose Maria de Resende e Laurindo Ferreira Machado, desenvolvendo o academico grande aptidão, actividade e conhecimentos praticos e os enfermeiros muita caridade e pericia em sua profissão... (CORREIA, 06/08/1866)

Offerta homeopathica. Lemos em um jornal que um pharmaceutico homeophata do Rio de Janeiro offerecera ao governo os globulos mysteriosos para combater a cholera-morbo no exercito! É valliosissima a oferta. É sabido que os amantes do globulismo pagam caro o gosto pela medicação symbolica: tres a seis globulos por cinco mil réis é o preço da minina cotação cá pelas províncias; quanto não vallerão lá pela Corte[...] (GAZETA MEDICA DA BAHIA, 25/05/1867:263-264)

reconhecidos por autoridades brasileiras) que exerciam o ofício de professores e/ou pesquisadores e/ou médicos em faculdades, hospitais, clínicas e atendimentos particulares. Também englobava estudantes de medicina (ainda não diplomados, mas legitimados por serem alunos de uma instituição), bem como especialistas em Farmácia e Cirurgia. Os membros desta classe partilhavam de meios e recursos em comum, a exemplo dos regulamentos dos estabelecimentos onde trabalhavam e licença para exercício da profissão que exerciam. Mas há, também, no seio do que se chama de classe médica, divergências teóricas e políticas que tornam perigosa a ideia de “classe” que, se não ponderada cuidadosamente, pode tornar uno o que é heterogêneo (QUEIROZ, 2018:110)

Referências:

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Fontes

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Publicado

23-12-2021

Como Citar

QUEIROZ, V. de J. Do ambiente teórico ao laboratório prático do caos: profissão médica e Guerra do Paraguai (1850-1860). Tempos Históricos, [S. l.], v. 25, n. 2, p. 262–299, 2021. DOI: 10.36449/rth.v25i2.26288. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/temposhistoricos/article/view/26288. Acesso em: 16 maio. 2022.