CAFUZA, MULATA, NEGRA: CORPO E MEMÓRIA NO DISCURSO DE CERVEJAS BRASILEIRAS

Amanda Batista Braga

Resumo

Este artigo se apresenta com o intuito de empreender uma análise discursiva do rótulo e do material publicitário de três cervejas comercializadas no Brasil: a cerveja Cafuza, a cerveja Mulata e a Devassa Negra. Partindo da regularidade que une e tece os enunciados em questão – a referência à mulher afro-brasileira –, o objetivo é apresentar uma análise que considere a natureza semiológica desses enunciados, além de fazer emergir suas margens enunciativas e sua dimensão histórica. O intuito é analisar o fio discursivo que os oferece condições de emergência, oferecendo visibilidade ao cenário ainda escravocrata que aqui se apresenta enquanto a priori histórico, num jogo de memórias que ecoam pelo tempo. O que veremos é o corpo da mulher negra (mulata, cafuza) enredado por um discurso que parte da imagem da escrava sexual e alcança, hoje, sua exacerbação, principalmente se pensamos na (con)fusão instaurada entre os nomes das cervejas e as mulheres estampadas em seus rótulos: produtos a serem consumidos? Como recurso teórico-metodológico, este artigo terá como ponto de partida os deslocamentos realizados no interior da Análise do Discurso francesa no decorrer da década de 80. Introduziremos uma discussão, ainda que em linhas gerais, sobre o modo como emerge, naquela década, a preocupação com uma materialidade semiológica dos discursos, para além da materialidade linguística. Ancorados nesse panorama, nosso objetivo é fazer trabalhar as novas perspectivas mediante sua aplicação analítica. Trata-se da tentativa de apanhar o enunciado considerando as diferentes linguagens que o compõem, bem como de oferecer-lhe a densidade histórica que lhe é intrínseca, fazendo aparecer, à luz do dia, aquilo que não era visível de imediato.

Palavras-chave

memória, mulheres, cervejas.

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